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Página 3 de 5 PREFÁCIO DOS AUTORES Os problemas ambientais das sociedades industriais tecnocráticas começam a ser considerados como manifestações daquilo que alguns já vão chamando «a crise ambiental permanente». Há quem já a entenda como uma crise do carácter e da cultura.
Os movimentos sociais ambientais/ecológicos do século XX constituíram uma das respostas a essa crise permanente. Tais movimentos enfrentaram alguns dos problemas, e tentaram reformar algumas das leis e organismos que exercem a gestão do território, bem como modificar determinadas atitudes das pessoas que constituem essas sociedades. Mas necessitamos mais do que simples reformas. Numerosos filósofos e teólogos têm mostrado a necessidade de uma nova filosofia ecológica à altura do nosso tempo.
No entanto, segundo nos parece, não é algo de novo aquilo de que precisamos, mas antes de voltar a despertar qualquer coisa de muito antigo, de voltar a despertar a nossa compreensão da sabedoria da Terra. No sentido mais amplo, precisamos de aceitar o convite à dança - a dança da unidade entre os seres humanos, as plantas, os animais e a Terra. Precisamos de cultivar uma consciência ecológica. E acreditamos também que a saída da nossa perigosa situação actual talvez seja mais simples do que muita gente imagina.
Em resposta à crise ambiental, os temas de Ecologia Profunda oscilam entre opções pessoais e individuais e opções colectivas. Ao nível pessoal, encorajamos a introspecção, a purificação e a harmonia, e uma celebração pela dança ou afirmação de todos os seres. Ao nível da análise intelectual e histórica, o livro apresenta uma análise da visão dominante na nossa sociedade, visão essa que conduziu directamente à crise persistente da cultura. Em seguida, apresentamos uma perspectiva ecológica, filosófica e espiritual para lidar com a crise.
Ao nível da política nacional ou das comunidades locais, analisamos diversas perspectivas convencionais sobre a gestão dos recursos naturais, criticamos essas perspectivas e apresentamos alternativas realistas. Um dos principais fios condutores do livro é uma análise intelectual da dificuldade em que nos encontramos e uma tentativa de esclarecer quais as nossas necessidades vitais como seres humanos.
Aos leitores convencidos de que vivemos no melhor dos mundos, devido ao nosso elevado nível de vida, o livro sugere uma perspectiva diferente. Aos filósofos profissionais, gestores de recursos e políticos que lidam com ideias, abstracções, teorias éticas, economia e política, o livro sugere algumas das limitações, em nossa opinião, da abordagem política dominante. Ao leitor em busca de uma existência mais autêntica e de uma maior integridade de carácter, o livro oferece uma teoria da acção directa que pode favorecer um maior amadurecimento.
Estruturalmente, este livro apresenta no primeiro capítulo cenários prováveis para o futuro do movimento ambiental/ecológico ao longo das próximas décadas. Sugerimos uma perspectiva baseada em interrogações mais profundas e no desabrochar da consciência ecológica. No segundo capítulo analisamos a tradição minoritária acerca da cultura e da comunidade, e ainda os tipos específicos de acção directa que as pessoas podem adoptar com o objectivo de melhor servir as suas próprias necessidades vitais, servindo ao mesmo tempo as necessidades da comunidade mais ampla dos outros seres humanos, das plantas, dos animais e da Terra. O capítulo terceiro resume a visão dominante e a visão dos seus críticos. No quarto capítulo, analisamos a resposta reformista a essa visão dominante, tanto no plano filosófico como no da política de reformas.
O capítulo quinto apresenta as intuições básicas, as normas últimas e os princípios da ecologia profunda. No sexto capítulo, são apresentadas diversas fontes das intuições e dos princípios filosóficos da ecologia profunda. O capítulo sétimo analisa a necessidade vital de natureza selvagem que têm os seres humanos e as decisões políticas que actualmente afectam o que na Terra resta dessa vida selvagem.
No oitavo capítulo enfrentamos os problemas efectivos da gestão dos recursos naturais nas sociedades industriais e tecnocráticas e sugerimos algumas propostas de gestão do ponto de vista da ecologia profunda. Apresentamos a importância das visões ecotópicas no capítulo nono, juntamente com um balanço de diversas formulações ecotópicas feitas por escritores notáveis.
O capítulo décimo defende que a acção directa contribui para o amadurecimento pessoal, tomando por base as teorias da evolução psico-social. O capítulo final regressa ao tema da acção directa, e examina a resistência ecológica - a afirmação da vida baseada em intuições e princípios da ecologia profunda.
Ecologia Profunda é um convite ao pensamento próprio, e apresenta problemas e dilemas desafiadores. Para ajudar a transformar intuições pessoais em ecologia profunda, incluíram-se citações breves de numerosos autores. Essas intuições, percepções e debates estimulantes podem ser lidos independentemente do texto geral. Incentivamos o leitor a ler este livro de maneira criativa, estabelecendo pontes entre as ideias do texto e as que se encontram destacadas dele.
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