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SEMPREEMPE.PT 09 de Setembro de 2010
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Construir a Esperança | Imprimir |

APRESENTAÇÃO DO ORGANIZADOR (EXTRACTO)

Desafio à Globalização

John Feffer

A globalização é um sapato ténis da Nike nos pés de toda a gente, uma Golden Arch em todas as cidades, uma Madonna na capa de todas as revistas, uma fábrica sweatshop em cada beco, uma coca-cola em todas as mesas, uma grande barragem em cada rio, uma nuvem de poluição em todas as paisagens e «ajustamento estrutural» no discurso de todos os governantes influentes. A globalização é uma linha de montagem à volta do mundo inteiro, dando origem a cada vez mais empregos do tipo 3D (sujos, perigosos, difíceis: dirty, dangerous, difficult) e cavando mais ainda o fosso entre ricos e pobres. A globalização é a mesma resposta para uma multidão de problemas: «Deixem que o mercado decida». A globalização é a TINA (Não Há Alternativa: There is No Alternative), declarada vitoriosa por Margaret Thatcher após o colapso do comunismo na Europa Oriental.

Por outro lado, a globalização não pode ser só má. Afinal de contas, com a globalização deu-se a generalização dos avanços técnicos, um maior contacto intercultural e solidariedade internacional. Quando Nova Iorque come sushi, os habitantes de Tóquio dançam música pop de Hong-Kong, os chineses vêem filmes franceses, os parisienses lêem romances senegaleses, os residentes de Dakar visitam sítios argentinos da internete, e em Buenos Aires os pãezinhos do tipo dos de Nova Iorque são um êxito, dá ideia que a globalização ampliou as nossas opções em vez de as limitar. Para além de um círculo de citadinos em ascensão social, a globalização ajudou também a elevar a visibilidade dos padrões internacionais para os trabalhadores, o respeito dos direitos humanos e os movimentos de emancipação da mulher. A globalização levou os dirigentes mundiais a Seattle à reunião de 1999 da Organização Mundial do Comércio, mas levou também às ruas de Seattle um batalhão internacional de protestatários.

Existirá uma «boa» e uma «má» globalização? Será necessária mais do que uma palavra para descrever esse fenómeno? Será a globalização em todas as suas formas inevitável ou simplesmente uma moda passageira? Estaremos nós a caminho de «um só mundo,  estejamos preparados ou não», mundo esse sem regresso, nem desvios, nem bifurcações ou mesmo sem colisões na estrada?

Neste livro, tentaremos enfrentar estas difíceis questões a partir de diversos ângulos. Reconhecendo que as implicações da globalização são importantíssimas, focaremos no entanto a globalização como força económica que transpôs poderosamente as fronteiras. Tentaremos compreender esse aspecto da globalização não apenas a partir do topo da pirâmide mas a todos os níveis - nível pessoal, local, regional, nacional e transnacional.

O mais importante serão as histórias que vamos contar. O leitor irá ao encontro de Juany Cázares e Paty Levya, que fizeram frente a um americano fabricante de roupas no México, de Tet Non, que fabrica mosquiteiros para sustentar a família e ajudar a construir uma alternativa sustentável na sua aldeia do Camboja, dos «Footlocker Eight», os oito activistas que desafiaram a Nike em New Hampshire, e da activista e empresária Safia Minney, que pôs de pé uma empresa de comércio justo no Japão. São testemunhos de pessoas de todo o mundo que introduziram uma pequena diferença na maneira de lidar com as coisas. Com êxito.

Esta introdução situa essas histórias num contexto mais vasto e para isso apresenta alguns dos antecedentes da globalização - a sua história e principais características definidoras - e também identifica alguns dos temas que percorrem os vários estudos de casos que constituem este livro.


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